domingo, fevereiro 20, 2005

A sacra poesia de Civone

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Por Alexandro Gurgel

“A composição poética de Civone se estabelece nas relações corpo/mundo, onde se perpassa uma poética truncada e pontilhada sob o eu-poético fragmentado e sussurrante. Poética de cunho pagão, sugada e sangrada do habitante humano, aprendida e elaborada nas experiências vivenciais, tendo o corpo como foco modelador”. (Bianor Paulino, poeta)

Civone Medeiros Tönig é natalense, nascida na Maternidade Januário Cicco, em 1972. Civone é artista performer, produtora cultural e poeta. Sua influência é diretamente atribuída a baluartes da poesia natalense como Falves Silva, Doriam Lima, Venâncio Pinheiro, Plínio Sanderson, Dunga, Bianor Paulino e tanto outros que faziam a cultura acontecer dede os anos setenta. Hoje, Civone faz performances, onde demonstra mais liberdade de expressão poética.
“Faço umas performances contemporâneas e também escrevo prosa. O que me inspira para fazer poesia, fora da poesia, são as pessoas e os ambientes, quando crio a poesia na hora da performance. Às vezes, minha poesia é complicada para algumas pessoas”, disse Civone, definindo sua performance poética.
Em 2000, Civone promoveu um intercâmbio cultural entre Natal e Viena chamado “A Arte na Esquina do Brasil”, o qual surgiu a partir de um texto sobre Guaraci Gabriel. Durante 97 até 99 foi um período de pré-produção e escolha do elenco de artistas natalenses que iriam fazer uma turnê pela Áustria.
O maior orgulho da poeta foi poder levar artistas como Cleudo Freire, Embola Funk, Otávio Augusto, Guaraci Gabriel, Lenilton Lima, Afonso Martins, Ceiça de Lima, Rosa Marciel, Isaias Ribeiro e tantas outras pessoas que estiveram em Viena. “Consegui tudo isso sem um prata no bolso. Felizmente, conseguimos obter um sucesso enorme e as portas estão abertas até hoje”, afirma.
Devido ao grande sucesso em 2000, Civone está começando a trabalhar na produção da segunda versão da exposição “A Arte na Esquina do Brasil”, a qual acontecerá em 2004. A produção do evento já garantiu hospedagem, alimentação e lugar para as apresentações e exposições. Agora, Civone quer captar recursos para pagar as passagens de avião para o elenco.
Atualmente, Civone apresenta a instalação “Sacra Vulva”, a qual faz parte de um estudo que envolve arqueologia, antropologia e mitologia. A inspiração veio do encontro que a artista teve com uma imagem feminina antiga, datada de 35 mil anos, uma escultura da “Vênus de Willendorf”, encontrada a 20 km de Viena.
Nas suas pesquisas pela Grécia, Civone encontrou uma Deusa grega chamada “Baubô”, cuja sensualidade é muito cultuada. “Ela é cheia de ironias, exibe sua vagina para lembrar o culto de fertilização que existia. Depois, procurei em outras literaturas e descobri que na Índia, entre os Esquimós, na África e em várias culturas do mundo inteiro existe uma relação sagrada com a vulva. Foi minha forma de homenagear as mulheres, uma maneira de homenagear a vida, porque todo mundo nasceu de uma vulva”, declara.

Há possibilidades do projeto “A Arte na Esquina” voltar a cena?
Felizmente, tivemos um sucesso enorme em 2000, todas as portas continuam abertas e já estou trabalhando para fazer o evento em 2004. Até porque já temos alimentação, hospedagem e lugar para as apresentações. Nosso único problema são as passagens de avião para o elenco. No dia da inauguração da exposição, em Viena, eu chorei feito uma criança no meio de todas aquelas pessoas, tomando Pitu ao lado dos meus amigos e um bufe nordestino em plena Europa. Foi a realização de um sonho meu, sabe! E um monte de loucos acreditaram nesse sonho e transformou isso em realidade. (Civone chora e emociona-se) Não sei como consegui levar vinte e três artistas natalenses para Viena expor numa galeria enorme. Tudo isso sem apoio político, sem nenhuma fundação, sem dinheiro sem nada... como é que pode, cara! (emociona-se).

Qual a mensagem que a “Sacra Vulva” passa para as pessoas?
Criei uma instalação, um templo onde as pessoas entram e aprendem um pouco mais sobre as mulheres através da vulva. Há uma performance dentro de um trabalho auto-referencial, que é uma junção de referências femininas de mulheres potiguares e do mundo inteiro. Já esteve na Capitania das Artes, no Fórum Social Potiguar e agora, a instalação está na Cultura Alemã, mas pretendo levar para outras cidades, quero levar para o interior do RN também.

Em algumas performances você tira a roupa, usando seu corpo para expressar arte. Como as pessoas absorvem bem essa atitude poética?
Eu pinto, canto, danço, bordo, etc... e depois de fazer teatro moderno, aprendi a me expressar com meu corpo. Eu sou tímida, morro de vergonha de tirar a roupa, mas sinto uma necessidade de expressar minha arte dessa maneira. Acho que meu corpo é o meu templo, por isso é sagrado. Tenho uma poética corporal: falo do meu joelho, do meu ombro, do braço, pernas, etc... Enfim, trabalhar com o corpo é uma necessidade. Acho que a maioria das pessoas absorve minha poesia numa boa.

Você já foi bastante criticada, em Natal, com suas performances de vanguarda. Como você avalia essa situação?
Eu vejo isso como uma declaração de amor. Eu tenho um caso de amor com Natal e as críticas fazem parte do lado negativo do amor. Trabalhar com o corpo nú pode causar confusão na cabeça de algumas pessoas, parecendo que causa um choque profundo com a visão da nudez. Mas para outras tantas, o corpo é atração, uma corrente de sensações. Há também um sentimento na cabeça das pessoas que santo de casa não faz milagres. Quando vem do eixo Rio-São Paulo uma peça teatral onde aparece cena de nudez, as pessoas aplaudem e dizem: “que maravilha!” Ninguém reclama. Mas quando é alguém da terrinha que tira a roupa, as pessoas criticam. Isso é falso moralismo. Se eu venho com uma instalação cultuando a vulva, tirando toda a sujeira que a vulva tem – até porque todos nós nascemos da vulva – então, as pessoas me criticam. O que falta para esses críticos é o amor próprio. As pessoas ficam fazendo comentário sem ver a instalação ou minha performance, eles escrevem o que querem e o que não vêem. Um absurdo!

Qual é o teor de eroticidade na sua poesia?
O erotismo está na cabeça das pessoas. Eu considero que a maior parte da eroticidade está no meu trabalho, na minha obra – porque eu sou a minha obra – onde há esse teor, o qual é potencializado em cada pessoa que recebe a mensagem. Portanto, o grau de erotismo está em cada receptor. Outro dia, uma adolescente me perguntou: “Por que você provoca a libido das pessoas?” Eu não provoco o que elas já têm.

Você acha que o natalense esta mais preparado para entender sua performance? Hoje, você se sente mais a vontade para trabalhar a nudez nas suas apresentações?
Eu acredito que os natalenses já estão mais abertos. Até porque esse tipo de trabalho é uma tendência mundial para a arte contemporânea. Existem artistas do mundo inteiro fazendo performances com nudez: da África à América do Norte, do sul da Argentina à Austrália. Tem muita gente que trabalha com várias linguagens e, sem ter contato com nenhum grupo, sou daqueles artistas que trabalham com o corpo, com a alma e com o espírito, tentando simplificar tudo isso. Anos atrás, a nudez era considerada, extravagante ou abusada. Mas hoje, esse tipo de trabalho tem uma aceitação melhor, tem um respeito maior. Eu só tenho cuidado com certas coisas porque as pessoas passaram a me tratar melhor depois que eu morei fora do país. Confesso que tenho um pouco de medo.

Recentemente, a Capitania das Artes, através da Prefeitura da Cidade do Natal e a Sociedades dos Poetas Vivos e Afins fizeram uma homenagem a você. Como você absorve esse reconhecimento da cidade e da classe literária?
Um reconhecimento que muito me honra. Como disse na noite da entrega do prêmio, não sei se sou merecedora dessa honraria, estou muito nova e tenho muito para fazer. Mas por outro lado, se alguém tiver que me aplaudir, que bata palmas agora.

Quais são seus planos para o futuro?
Eu tenho planos e sonhos. Quero continuar apresentando a “Sacra Vulva” e levar a instalação com a performance para Mossoró, Caicó, Martins, Acari, Pau dos Ferros, Macau, Assú e outras cidades do interior do Estado. Quero sentir a reação das pessoas com esse trabalho vanguardista. Também gostaria de ir para fora do Estado como Recife, João Pessoas, Fortaleza, Salvador, Tocantins, etc... Quero fazer esse intercâmbio. Tenho feito um trabalho com vídeo e quero dar continuidade. Tem também um trabalho com gastronomia que estou pesquisando, chamado “Temperos da Vida”, provocando a magia de cada condimento. Quero explorar a gastronomia das feiras livres e do Beco da Lama também, isso me fascina. Outra coisa que quero é poder desenvolver um “centro cultural” para criar pensadores, um trabalho solidário que envolva outras pessoas disposta a ajudar na área cultural e social.

por Alma do Beco | 10:37 AM


Hugo Macedo©

Beco da Lama, o maior do mundo, tão grande que parece mais uma rua... Tal qual muçulmano que visite Meca uma vez na vida, todo natalense deve ir ao Beco libertário, Beco pai das ruas do mundo todo.

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